Este é outro antepassado de quem gostaria de falar... Mais uma vez, são as impressões de uma netinha... Pode ser que meus irmãos e primos discordem, mas este foi o Vovô Tonico que conheci. Pai de minha mãe, nascido Antonio Caetano da Silva Guimarães Júnior, vovô Tonico era um poeta... Dentista por formação, funcionário público por conveniência (estudou odontologia prá satisfazer vontade de seus pais), ornitólogo por diletantismo, especializado em sabiás, e poeta.
Vovô Tonico andava sempre de terno, mais claro no verão, mais escuro no inverno. Vivia em Dores do Indaiá, MG, sua terra natal onde, junto com minha adorada avó Maria Rita teve quatorze filhos, entre eles minha mãe. Não me lembro de vê-lo trabalhando, já era aposentado quando vim ao mundo. Andava pela cidade, e andava muito, sempre encontrando amigos e papeando... Na sua casa com minha avó havia um “barracão” (que vim a conhecer depois como sendo uma edícula) onde acomodava suas gaiolas de sabiás e sua coleção de ovos. Ovos? Sim, vovô tinha uma coleção de ovos de muitos e muitos pássaros, de todo o mundo, minha mãe diz... Lembro de vê-las de relance quando ele abria o barracão, podia olhar de longe, mas jamais me aproximar (imaginem eu, mais irmãs e um bando de primos entrando ali? Jamais!!! ). Sei que uma vez tentou doá-las para museus brasileiros, tentou até o Museu do Ipiranga, em S.Paulo, mas nunca houve real interesse. Parece que hoje esta coleção está em poder de um primo de meu avô...
Seus sabiás... não me lembro quantos deles vi nas gaiolas de meu avô, eram muitos. Vez por outra seu terno estava “batizado” pelos excrementos dos bichinhos... E nós, os netos, já estávamos “craques” em passar perto das gaiolas, evitando as pontarias certeiras dos sabiás. Hoje eu teria tremendas discussões com meu avô, estivesse ele vivo, porque não posso aceitar pássaros em gaiolas!
Vovô também era poeta, e escreveu um grande poema prá sua terra... Mais de mil quadrinhas, ele dizia... e eu lá ficava imaginando... mil quadrinhas? Puxa, mil é muita coisa! Pois é, escreveu um poema de mais de mil quadrinhas sobre sua terra, Dores do Indaiá. Quando íamos visitá-lo, nas férias escolares, ele costumava recitar alguns de seus versos, e eu adorava ouvi-lo. Este que vou citar sei de cor:
“Lá no pasto do Cintinho,
muita poesia havia,
orquestra de passarinhos,
água limpinha corria.”
Era só meu avô me recitar esta quadrinha que eu corria a beber água, porque dizia prá ele que falava de uma água tão limpinha que me fazia ficar com sede!
Cada neto seu que nascesse também ganhava uma quadrinha... A minha era:
“Deixaste com teus avós

tua carinha mimosa,
olhem bem: que formosura,
mais parecendo uma rosa! “
Lembro-me de vê-lo folheando seus manuscritos: folhas, folhas e mais folhas... Molhava o dedo indicador com a língua para passá-las mais facilmente, e recitava, recitava, recitava. Meu pai também ficava a ouvi-lo, junto comigo e minhas irmãs... Acho que meu pai, como eu, era grande admirador dos versos do vô Tonico, que vivia na “peleja”, tentando publicá-las em livro. Sei que levou bastante tempo, mas afinal, em 1970, conseguiu a publicação de suas quadrinhas, não de todas elas, mas uma seleção, pela Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais. Dois ou três anos depois meu avô faleceria. Seu livro se chama “Paisagens de Nossa Terra”, e sua capa é a imagem de hoje deste blog.
Vovô Tonico também vivia a nos cantar os cantos do Reisado (Folias de Reis), dançando os pontos das congadas... Sempre lamentava não estarmos presentes quando estas festas ocorriam. Verdadeira festa era prá mim e minha irmã Angela, caipiras urbanas, quando íamos prá Dores. Adorávamos andar livres por toda a cidade que, naquela época, se constituía em duas ou três avenidas paralelas cortadas por um par de dúzias de ruas... Duas ou três igrejas, cemitério, duas ou três escolas... Perambular pela cidade era o paraíso, já que o único perigo que poderíamos correr seria tropeçar e cair, ou cair da “ximbica” (camionete) de um conhecido que, sempre quando a víamos a passar, pedíamos carona e pulávamos na caçamba... Em nossas andanças sempre encontrávamos nosso avô, ou caminhando, ou sentado no banco da rodoviária com o tio Joãozinho, e outro amigo. Que será que tanto eles conversam? Pensava eu...
Hoje sei que deveriam ter muita, muita coisa prá falar...